Apagão de professores 2

Pesquisa revela risco de apagão de professores na educação básica

Estudo projeta que em 2040 haverá um professor jovem para cada seis com 60 anos ou mais; indicadores de precarização da carreira docente seguem em alta

A renovação do quadro de professores da Educação Básica brasileira está em queda, ao mesmo tempo em que avançam indicadores de precarização da carreira docente. Entre 2015 e 2025, o número de professores com até 24 anos no Ensino Médio caiu 31,1%, enquanto o contingente com 60 anos ou mais aumentou 104,5%. No mesmo período, os contratos temporários na rede pública cresceram 40,4%, de aproximadamente 146 mil para 205 mil, enquanto o número de professores concursados, efetivos ou estáveis caiu de 305 mil para 255 mil. Os dados fazem parte da segunda edição da pesquisa Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp. O estudo atualiza o alerta apresentado pela instituição em 2022, quando havia sido projetado que o país poderia chegar a 2040 com déficit de aproximadamente 235 mil professores na Educação Básica. Quatro anos depois, a pesquisa aponta que o problema estrutural não foi superado.

A chamada Taxa de Renovação Docente, criada pelo Instituto Semesp para medir a capacidade de reposição dos profissionais, relaciona o número de professores com até 24 anos ao contingente com 60 anos ou mais. Quanto menor a taxa, maior a dificuldade de renovação do quadro.

Em 2015, havia praticamente um professor com até 24 anos para cada professor com 60 anos ou mais. Em 2025, a relação caiu para cerca de um jovem para cada três docentes com 60 anos ou mais, e a taxa passou de 0,95 para 0,32. A projeção para 2040 é de queda para 0,17, equivalente a aproximadamente um professor jovem para cada seis docentes com 60 anos ou mais. Em números absolutos, seriam cerca de 10,7 mil professores jovens diante de 61,9 mil docentes com 60 anos ou mais.

“Os dados mostram que o risco de apagão não depende mais apenas da quantidade de professores existentes hoje. O principal desafio está na capacidade de formar, atrair e incorporar novos profissionais em ritmo suficiente para substituir aqueles que deverão deixar a carreira nos próximos anos”, afirma Lúcia Teixeira, presidente do Semesp.

Mais temporários, menos efetivos

A deterioração da renovação ocorre paralelamente a uma mudança na composição dos vínculos docentes na rede pública do Ensino Médio. Entre 2015 e 2025, o número de professores com contratos temporários cresceu 40,4%, de aproximadamente 146 mil para 205 mil. A participação desses profissionais no quadro público passou de 32,2% para 43,4%.

Já o número de professores concursados, efetivos ou estáveis caiu de aproximadamente 305 mil para 255 mil. A participação desse grupo recuou de 67,2% para 54,1%. Em termos absolutos, são cerca de 50 mil professores efetivos ou estáveis a menos e 59 mil temporários a mais no período.

Para Lúcia Teixeira, os contratos temporários permitem às redes preencher vagas e responder rapidamente a demandas de curto prazo, mas têm duração determinada e não asseguram a mesma estabilidade dos cargos efetivos. Segundo ela, o crescimento desse tipo de vínculo deve ser analisado considerando estabilidade, continuidade, retenção e atratividade da força de trabalho docente.

“A expansão das contratações temporárias, portanto, atende parte da necessidade imediata das redes, mas não resolve o problema estrutural de renovação. Ao contrário, aumenta a dependência de vínculos mais precários em um momento no qual o sistema educacional precisa atrair e reter uma nova geração de professores”, afirma Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp.

Nenhuma área tem renovação suficiente

O problema não está concentrado em determinadas disciplinas. De acordo com a pesquisa, nenhuma das áreas avaliadas apresenta Taxa de Renovação Docente igual ou superior a 1, patamar que representaria pelo menos um professor jovem para cada docente com 60 anos ou mais.

As menores taxas foram registradas em Geografia, 0,216; História, 0,234; Língua Portuguesa, 0,240; Sociologia, 0,263; Filosofia, 0,274; e Artes, 0,278.

A deterioração também alcançou áreas que apresentavam situação mais favorável em 2015. Em Química, a taxa caiu de 1,773 para 0,421; em Física, de 1,530 para 0,403; em Educação Física, de 1,590 para 0,305; e em Biologia, de 1,450 para 0,372.

“Os resultados indicam que o desafio de reposição/renovação dos docentes está generalizado e não se limita às disciplinas tradicionalmente associadas à falta de professores”, avalia Capelato.

Menos jovens na formação docente

Outro indicador está na formação da próxima geração de professores. Apesar da ampla oferta de cursos de Licenciatura, o número total de concluintes caiu 13,5% entre 2015 e 2024.

Entre os concluintes com até 24 anos, a retração foi de 64,6% em Educação Física, 42,4% em Música, 39,1% em Biologia e 28,1% em Química. Em Pedagogia, a redução foi de 23,3%, e em Filosofia, de 23,4%.

Também mudou o perfil etário dos formandos. A participação dos concluintes de Licenciaturas com até 24 anos caiu de 24,3%, em 2015, para 20,5%, em 2024. Já a parcela daqueles com 30 anos ou mais aumentou de 53,5% para 57,3%.

O número de ingressantes nas Licenciaturas cresceu, mas a expansão está concentrada na educação a distância. Enquanto os ingressantes em cursos presenciais caíram 44,2%, de 276 mil para 154 mil, os ingressantes na EAD aumentaram 158%, de 252 mil para 650 mil.

Na EAD, o perfil etário dos concluintes é mais elevado. Em 2024, apenas 10,1% tinham até 24 anos, enquanto 72,4% tinham 30 anos ou mais. Para Capelato, os números reforçam que o desafio da renovação não está apenas na oferta de cursos de formação docente, mas também na capacidade de atrair jovens, garantir sua conclusão e convertê-los em profissionais que efetivamente ingressem e permaneçam na Educação Básica.

Formação nem sempre corresponde à disciplina

A adequação da formação também aparece como desafio. Entre 2015 e 2025, a proporção de docentes com formação na mesma área em que lecionam passou de 58,9% para 65,5%.

Por outro lado, o percentual de professores que atuavam em áreas diferentes de sua formação aumentou de 24,3% para 26,6%. “O desafio não é apenas garantir professores em número suficiente, mas também profissionais com formação adequada para atender às diferentes disciplinas”, afirma Lúcia Teixeira.

Remuneração e progressão

Os dados sobre remuneração ajudam a dimensionar outro aspecto da carreira docente. Em 2025, um professor do Ensino Médio recebia, em média, aproximadamente R$ 6,5 mil mensais no Brasil, valor equivalente a cerca de 80% da renda média dos trabalhadores com ensino superior completo, de R$ 8,1 mil.

A remuneração também varia entre as disciplinas. Professores de Matemática recebiam, em média, R$ 5,7 mil mensais; os de Química, R$ 4,5 mil; e os de Filosofia, R$ 4,1 mil.

A comparação internacional evidencia ainda diferenças na remuneração inicial e na progressão profissional. Segundo dados do Education at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), analisados pelo Instituto Semesp, um professor do Ensino Médio em início de carreira no Brasil recebia, em 2024, o equivalente a US$ 24,5 mil por ano, considerando valores ajustados pela paridade do poder de compra.

O valor era de US$ 31 mil no Chile; US$ 37,8 mil na Coreia do Sul; US$ 41,3 mil em Portugal; US$ 48,9 mil na Finlândia; US$ 50,1 mil no Canadá; US$ 57,5 mil na Austrália; e US$ 59,8 mil na Dinamarca.

Em alguns desses países, a progressão salarial ao longo da carreira é expressiva. Na Coreia do Sul, a remuneração anual passa do equivalente a US$ 37,8 mil no início da carreira para US$ 65,8 mil após 15 anos, podendo chegar a US$ 104,8 mil no topo da escala salarial. Na Austrália, evolui de US$ 57,5 mil para US$ 81,8 mil após 15 anos e pode alcançar US$ 93 mil. No Canadá, passa de US$ 50,1 mil no início para US$ 87,3 mil após 15 anos.

“Esses dados mostram que, em diferentes países e sistemas educacionais, a atratividade da carreira docente está associada não apenas à remuneração de ingresso, mas também às perspectivas de crescimento profissional e salarial ao longo da trajetória. No Brasil, a baixa remuneração inicial em comparação a outros países, a falta de progressão na carreira e a desvantagem salarial dos professores em relação a outros profissionais com ensino superior representam desafios adicionais para atrair jovens para a docência e renovar o quadro de professores”, afirma Capelato.

Valorização e permanência

A valorização da carreira, segundo a pesquisa, não se resume à remuneração. Entre os docentes pesquisados, 74,8% apontaram a falta de valorização e estímulo à carreira como um dos principais desafios da profissão.

Também foram citados a falta de disciplina e interesse dos alunos, por 62,8%; a falta de apoio e reconhecimento da sociedade, por 61,3%; o baixo envolvimento das famílias, por 59%; e a baixa remuneração, por 58,3%.

Os indicadores também aparecem na intenção de permanência na profissão. Entre os professores pesquisados, 79,4% afirmaram já ter pensado em desistir da carreira docente, enquanto apenas 5% disseram se sentir motivados e confiantes em relação ao futuro profissional.

Demografia não elimina o risco

A redução da população jovem brasileira pode diminuir parte da demanda potencial por matrículas no Ensino Médio, mas não elimina os problemas apontados pela pesquisa. Entre 2015 e 2025, a população de 15 a 17 anos caiu 14,4%, de 10,2 milhões para 8,8 milhões.

Mesmo diante da redução demográfica, as redes de ensino precisam garantir professores para diferentes disciplinas, escolas, turnos e regiões. Para Capelato, permanecem os desafios relacionados à queda da renovação docente, ao envelhecimento do quadro, à menor presença de jovens na profissão, ao avanço das contratações temporárias e às dificuldades para atrair e manter profissionais na carreira.

Pesquisa foi apresentada no FNESP

A segunda edição da pesquisa foi apresentada por Rodrigo Capelato na última quarta-feira, 16 de setembro, durante o primeiro dia do 28º Fórum Nacional do Ensino Superior Privado (FNESP), realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo. Promovido pelo Semesp, o evento ocorre nos dias 16 e 17 de setembro e reúne cerca de 1.800 participantes, entre gestores, mantenedores, educadores e pesquisadores de instituições públicas e privadas, além de especialistas internacionais e representantes do poder público.

A programação, que encerra nesta quinta-feira, 17, contempla debates sobre políticas públicas, regulação e futuro do ensino superior, com participação de autoridades e especialistas internacionais da China, México, Colômbia, África do Sul e da Unesco. Entre as autoridades anunciadas estão o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias; o secretário-executivo do Ministério da Educação, Rodolfo de Carvalho Cabral; a secretária da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres/MEC), Marta Abramo; o secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Felipe Proenço de Oliveira; e o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Callegari.

O Instituto Semesp é um centro de inteligência analítica e levantamento de dados e estudos estatísticos do setor educacional. A instituição desenvolve pesquisas, indicadores e análises para pesquisadores, educadores, gestores públicos e privados, jornalistas e a sociedade. O Semesp, fundado em 1979, representa mantenedoras de ensino superior no Brasil e organiza, entre outros eventos, o FNESP.

Fonte: Extra Classe

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