Jessé Souza - crédito Gabriel Lain - 02

Jessé Souza: “Quase sempre é um professor o responsável por uma mudança de vida”

Convidado pelo Sinpro/Caxias e pelo Sindiserv para palestrar em Caxias do Sul, Jessé Souza falou para o auditório lotado na noite de 19 de junho, apreciando estar na cidade: “Em uma sociedade onde tudo é indireto, esse contato para mim é muito importante.”

Na abertura do encontro, José Carlos Monteiro, coordenador do Trabalho do Sinpro/Caxias, fez uma saudação, lembrando que Jessé prontamente aceitou o convite, considerando que iria falar para professores.

Disputa de ideias

Jessé Souza, sociólogo, escritor e ex-professor, buscou “recuperar as linhas do passado da nossa sociedade e depois ligá-las ao momento atual a partir da expansão da extrema direita mundial”, conforme suas próprias palavras.

O palestrante observou que grande parte dos pensadores brasileiros de crítica social, desenvolvem uma interpretação elitista e machista. “As ideias dominantes no Brasil são as da classe dominante. A esquerda precisa disputar as ideias hegemônicas, pois é onde começa toda a luta política”, explicou. “As pessoas não percebem a influência das ideias e que elas, e a produção delas, são o ponto social mais importante pra sociedade e seu possível desenvolvimento”, destacou em outro momento da palestra, analisando a apropriação, por parte das elites, dos meios de comunicação, ou seja, da produção simbólica das ideias.

Desigualdade e racismo persistem no Brasil

Jessé desvendou os interesses por trás do enfraquecimento do Estado. Para ele, o Estado é criminalizado por ser a única instância que pode fazer frente ao “mercado”. Criticou o prejuízo causado à população brasileira pelo Banco Central, com a decisão pelos altos juros.

Falou sobre a questão da corrupção, dizendo que a elite precisa do Estado para “organizar o roubo”, enquanto o povo brasileiro pobre é taxado de corrupto – lembrou da expressão “jeitinho brasileiro” – com o objetivo de ser animalizado, depreciado em sua humanidade.

Destacou a herança da escravidão na sociedade brasileira, em todas as instâncias da vida: na economia, na política e até na família. “A teoria dominante hegemônica do brasil é intrinsecamente racista, trocando o racismo explícito pelo cultural”, disse Jessé. “As classes sociais que dominavam na escravidão perduram até hoje”, completou.

Para ele, o direito penal brasileiro foi criado para coibir toda a cultura negra, desde a religião, a música etc.

Sobre o tema da palestra, SOCIEDADE EM TRANSFORMAÇÃO: Trabalho, Conhecimento e Qualidade de Vida no Século XXI, Jessé lembrou que trabalho, conhecimento e qualidade de vida são garantidos “para os 20% que estão lá em cima e nunca para os 90% que são pobres” e isso não é um fenômeno natural, é um projeto de dominação.

Apostaria na Cultura!

Jessé Souza enfatizou a importância de oportunizar o conhecimento: “Ou você é estimulado a estudar ou você não tem pensamento prospectivo, não tem futuro”, finalizou. Ao mesmo tempo, defendeu a importância da pluralidade de opiniões e da democratização da informação.

Falou que, se tivesse “uma única ficha”, apostaria na cultura, no sentido amplo. E chegou a sugerir que a isenção fiscal de grandes empresas (JBS, Rede Globo) poderia ser cortada e revertida para o ensino fundamental do país. “Com isso você transforma a escola brasileira para primeiríssimo mundo. Você dá um café da manhã, almoço e janta pra toda criança brasileira. Você dá uma escola integral onde ela vai poder aprender filosofia, pensar arte, esportes etc., desenvolvimento integral da pessoa. Em dez anos mudaria o país”.

Sobre a desvalorização das universidades públicas, da ciência e do conhecimento, defendeu que é parte de um projeto de “imbecilização”. Jessé foi professor universitário por 35 anos, mas disse que hoje não tem motivação para continuar lecionando, os salários estão defasados, os cérebros mais brilhantes foram afastados.  

Ele disse que quase sempre o responsável para uma mudança de vida das pessoas em vulnerabilidade é um professor. “Um professor que olhou para a pessoa que nunca foi olhada, um professor que deu estímulo que essa pessoa nunca teve. Às vezes isso é tudo o que um ser humano precisa, um olhar acolhedor.”

Após a palestra, o autor de A Elite do Atraso, A Ralé Brasileira e O Pobre de Direita, entre outros títulos, respondeu perguntas dos participantes e autografou livros.

Fotos: Gabriel Lain

Notícias
Loading...