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Sentidos para a profissão professor e a pandemia

E agora, onde está o professor?

Por Fabíola Ponzoni Balzan

Este ano letivo iniciou como qualquer outro. Seriam semestres regulares, imaginávamos, cheios de expectativas e de aprendizagens desafiadoras. No entanto, ao longo do mês de março, ouvíamos notícias sobre o (já não tão novo) vírus que atravessava as fronteiras sem ser convidado a estar conosco: Covid-19. Por falta de algo melhor, ficar em casa, evitar contatos sociais e aglomerações, traduziu-se na melhor condição para conter a proliferação da doença. A suspensão oficial das aulas aconteceu e foi anunciada a alternativa: encontros remotos através de plataformas virtuais, envolvendo atividades síncronas e assíncronas. Embora este repertório vocabular já fosse conhecido por nós, dirigia-se, predominantemente, até então, à modalidade educação a distância e, portanto, não estávamos familiarizados com sentidos suscitados pela sua súbita filiação aos cursos presenciais.      

Em decorrência disto, nos perguntamos: que sentido(s) atribuir à profissão professor em meio a uma pandemia acelerada que nos desestabilizou e que aponta para a enunciação de sentidos outros para a nossa profissão? E, ainda, de que forma tais sentidos se relacionariam com a (trans)formação de professores? Evidentemente, o sujeito professor é construído pela tradição didático-pedagógica. Aquele sujeito que planeja e dinamiza aulas, que se dirige fisicamente a uma sala de aula e à biblioteca,  interage presencialmente com os estudantes, elabora atividades, as lê e emite comentários apreciativos, atribui notas, entre outras atividades.      

Entretanto, que outros sentidos emergem num contexto de pandemia? Mediador, facilitador, educador, pro, tutor, sor, produtor de materiais impressos e digitais, editor de vídeos educativos, influenciador, técnico em informática educativa, youtuber... Tantas palavras! Tantos sentidos! Pensemos: as palavras não são indiferentes aos sentidos que suscitam. E, o que é ensinar e aprender se não prestar atenção nos sentidos das palavras, nas suas ressonâncias, nas suas faltas, nas suas repetições, nos seus estranhamentos, nas memórias que carregam e as quais nos filiamos, por vezes, sem mesmo perceber?

O professor estava no entremeio, nos entrelugares, na existência concreta e nos encontros cheios de potencialidades, nas trocas com os outros. E, agora, onde está? Está na tela. Que possibilidades estão aí? Que sentidos são produzidos através das telas? O professor é o mesmo? E a sua profissão? Que linguagens estão nas telas? São as mesmas das salas de aula?      

Será que um vírus tem a capacidade de apontar para a possibilidade de caracterização de uma profissão e de um profissional? Talvez tenha a possibilidade de deixar a profissão e o profissional em suspenso (como ficaram nossos planejamentos iniciais registrados e entregues antes do início do ano)?      

Temos, portanto, o sujeito professor interpelado a se desestabilizar para construir novas posições discursivas as quais poderão valorizar ou não sua profissão.      

Para finalizar, acredito que a valorização do professor e de sua profissão não é algo como um bloco homogêneo pronto de fácil aplicação, tampouco é um receituário infalível a ser executado imediatamente para que gere os resultados esperados. Os sentidos para a profissão e para o professor são produzidos, também, mediante o uso da língua, numa dinâmica de significação sempre aberta a novas significações, através de nossos gestos de interpretação.
 

*Fabíola Ponzoni Balzan é Doutora em Educação UFRGS e professora da UNIDEAU e da FSG.