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Jornalistas denunciam comportamento da grande mídia no Brasil

Juremir e Moisés também falaram sobre a importância da organização sindical para evitar a perda de direitos

Juremir Machado da Silva e Moisés Mendes foram os convidados da primeira etapa do Ciclo de Debates Mídia e Poder no Brasil, realizada no dia 5 de julho. O Sinpro/Caxias apoiou o evento, que foi organizado pelo Coletivo de Comunicação Alternativa e realizado na Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, com auditório cheio.

Marlei Ferreira, jornalista com mais de 30 anos de experiência em diversos veículos de comunicação e assessorias de imprensa, foi a mediadora do debate. Inicialmente, ela trouxe para o público dados sobre a concentração da mídia no Brasil. Falou da propriedade cruzada, que é o caso de rádios, portais da web e redes de emissoras sob uma mesma propriedade – situação vedada pela Constituição. Alertou sobre emissoras sob o controle de políticos, o que também é vedado, mas recorrente. Destacou o monopólio da informação, como acontece, por exemplo, no segmento de televisão aberta, onde “70% do público nacional é compartilhado apenas por quatro grandes redes: Globo com 36,7% da audiência, SBT com outros 14,9%, Record com 14,7% e Band com 4,1% da audiência”, conforme o relatório “Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil”, da organização Repórteres Sem Fronteiras e grupo Intervozes, apresentado no final de 2017. Essa situação perturba a democracia, conforme Marlei, que também denunciou o o grave prejuízo das chamadas “fake news”. Em nome do Coletivo de Comunicação Alternativa, Marlei mostrou algumas estratégias para reconhecer e combater essas notícias falsas.

Imprensa e Golpe

Moisés Mendes, jornalista que trabalhou por 27 anos no jornal Zero Hora, autor do livro “Todos Querem Ser Mujica” e atualmente colaborador do jornal Extraclasse, abordou a relação entre imprensa e golpe, denunciando que a mídia não se coloca contra o golpe de agosto de 2016 e que a sociedade está entregue a um pensamento de Brasil arcaico. “Em um primeiro momento, a imprensa de 64 também apoiou o golpe que colocou os militares no poder, mas quando perderam o controle dos seus negócios, com o Ato Institucional Número Cinco, em 68, e a consequente institucionalização da censura, voltaram-se contra o regime militar”, afirmou o jornalista. “Hoje, o que a grande mídia quer é justamente aprofundar o golpe, porém sem a presença de Temer. Estamos muito próximos de viver uma situação em que superar esse golpe de 2016 seja muito mais difícil do que o de 64”, disse.

Moisés acredita que há o risco da sociedade brasileira eleger um Congresso ainda mais conservador do que o atual, implicando em retrocessos graves para a democracia, a distribuição de renda e os direitos sociais, a saúde pública e a soberania nacional. “Vocês podem ter certeza: se os conservadores obtiverem êxito nas urnas, o primeiro item a ser aprovado será a Reforma da Previdência”, afirmou.

Resistência nas redes

Juremir Machado, jornalista e doutor em Sociologia, professor e escritor, opinou sobre a atual realidade do jornalismo, com as transformações tecnológicas, políticas, culturais e econômicas vigentes. Ele acredita que o jornalismo impresso como o conhecemos hoje, com jornais diários sendo distribuídos, está com os dias contados. “É uma lógica econômica incontornável. Por que imprimir, levar para uma cidade distante, de caminhão, se pode estar instantaneamente online?”, questionou. Para ele, os cidadãos não deixaram de consumir informação produzida por grandes veículos, mas mudou a forma de consumo. “As pessoas se informam através das redes sociais, mas estão vendo, na verdade, conteúdo produzido por veículos tradicionais, transmitidos via rede social”, esclareceu. “Precisamos acreditar que podemos usar a internet de forma a fazer a guerrilha da informação, usando de maneira contundente para ampliar a consciência crítica”, afirmou.

Juremir também defendeu a construção de uma frente de esquerda para enfrentar o cenário político difícil nas eleições do segundo semestre.

Sindicatos e a perda de direitos

A perda de direitos trabalhistas, a partir da reforma protagonizada pelo governo Temer, foi uma preocupação exposta por ambos os painelistas. "Enquanto as entidades patronais se fortaleceram, as representações dos trabalhadores precisam buscar fórmulas para sobreviver", enfatizou Moisés. 

Segundo Juremir, o objetivo de destruir as organizações sindicais ficou claro com o ataque às fontes de recursos dos sindicatos, como o imposto sindical e a contribuição sindical. "A saída é os trabalhadores se unirem em torno dessas organizações", concluiu. 

O evento contou com patrocínio do Sindiserv e Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região, contando com o apoio da Taufe & Tapia Advocacia Trabalhista, Sindicomerciários Caxias do Sul, Sinpro/Caxias, Sindilimp e Sindicato dos Jornalistas/RS. A organização é do Coletivo de Comunicação Alternativa, um conjunto de jornalistas de Caxias do Sul que tem o objetivo de proporcionar debates e reflexões sobre a sociedade e a mídia.

Segunda etapa

No dia 8 de agosto será realizada a segunda etapa do Ciclo de Debates, também na Câmara de Vereadores, com início às 19h. Será a vez dos profissionais de tecnologia da informação e ativistas de software livre Marcelo Branco e Rodrigo Troian evidenciarem outros universos das mídias digitais, as redes livres, as redes comunitárias e as novas formas de participação via internet, abordando a trajetória que vai da comunicação de massas à autocomunicação de multidões. A inscrição é gratuita e pode ser feita via e-mail caxiasmidiaepoder@gmail.com.

Quem é quem

Marcelo Branco é profissional de tecnologia da informação e comunicação , ativista de software livre, pela liberdade do conhecimento, pelos direitos e novas formas de participação via Internet. Co-idealizador do projeto Conexões Globais, foi diretor geral da Campus Party Brasil nos primeiros três anos. Trabalhou para o Governo da Catalunya e foi membro do conselho assessor do mestrado internacional de software livre da Universitat Oberta da Catalunya (UOC Open University of Catalunya) e membro do conselho editorial do observatório da comunicação em Portugal.

Rodrigo Troian é ativista de software livre, pesquisa e faz redes em malha por wifi utilizando roteadores de baixo custo – as chamadas redes livres. Participa da comunidade Latino Americana de Redes Livres, palestrando e organizando eventos em diferentes países da América do Sul. Entre 2011 e 2013 desenvolveu implementações de redes comunitárias na região sul do Brasil e no Chile. Desde 2016, atua como consultor externo para organizações nacionais e internacionais construindo redes e ministrando oficinas no Brasil e no exterior. É um dos integrantes do coletivo da Coolab – laboratório cooperativo de redes livres, colaborando na instalação e no modelo de sustentabilidade de provedores comunitários de Internet no Brasil.

Foto: Gilmar Gomes