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Stephen Hawking defendeu a ciência a serviço do homem, e não do capital

Foto: Steve Elliott

Físico foi um dos nomes mais importantes da ciência associada ao humanismo. Morreu nesta quarta, aos 76 anos, “pacificamente”, segundo a família

O físico e cosmólogo Stephen Hawking foi um dos grandes entusiastas, da segunda metade do século 20 para cá, da capacidade da pesquisa científica de reinventar possibilidades, de redescobrir verdades. Curiosamente, havia nascido num momento em que o planeta tomava uma guinada em sua história, em plena Segunda Guerra Mundial, num 8 de janeiro de 1942. O momento, aliás, coincidia com os 300 anos da morte de Galileu Galilei – também físico, matemático, astrônomo e que só foi oficialmente perdoado pela Igreja Católica em 1992. A Terra já tinha dado 350 voltas em torno do Sol depois de sua morte quando essa verdade, descoberta por Galileu, foi enfim admitida. 

Ambos são provas de que – seja sob o capitalismo global de hoje, como sob a opressão eclesiástica da era da Inquisição – justiça e ciência não andam no tempo, no ritmo e na direção que Hawking e Galileu almejavam para a humanidade. “Inteligência é a habilidade de se adaptar às mudanças. O conservadorismo, por ser contra mudanças, é o exato oposto à inteligência”, dizia o físico britânico, palavras que poderiam caber também na boca do físico de Florença.

Para Hawking, o progresso tecnológico poderia ser um grande instrumento para qualidade de vida e a emancipação humana. “Devemos temer o capitalismo, não os robôs”, dizia o pesquisador, acometido por uma doença generativa que o acompanhou desde os 21 anos de idade. “Se, no futuro, as máquinas produzirem tudo o que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas são distribuídas. Todos poderão desfrutar uma vida de luxuoso lazer se a riqueza produzida for compartilhada”, desafiava, já observando os rumos do planeta: “Ou a maioria das pessoas pode acabar miseravelmente pobre se os donos das máquinas continuarem se posicionando contra a distribuição de riqueza. Até agora, a tendência parece apontar para esta segunda opção, com a tecnologia conduzindo para uma desigualdade cada vez maior”, constatou.

A sabedoria e fé de Stephen Hawking, que alimentaram sua capacidade de produzir conhecimento, brotavam portanto, de um sentimento humanista absoluto.

Alguns “companheiros” do mundo da pesquisa achavam que acabou muitas vezes agindo mais como “pop star” do que como celebridade. Ele já foi tema de filmes e livros, “atuou” em episódio dos Simpsons, em seriados, em tiras de jornais. Emprestou até sua “voz”, sampleada para o sintetizador de David Gilmour, do Pink Floyd, na faixa Keep Talking, – (It doesn't have to be like this/ All we need to do is make sure we keep talking...”) do álbum The Divison Bell (1994). A letra é inspirada num texto do físico utilizado para uma peça publicitária, em que pregava o diálogo entre os homens.

O processo degenerativo levou gradualmente à perda completa de seus movimentos. O autor de Uma Breve História do Tempo usava um sintetizador para se expressar quando inspirou a canção de Gilmour. E uma década mais tarde usava músculos da bochecha para acionar o sintetizador. Foi apenas uma das técnicas pelas quais tentava estimular a humanidade a acreditar: “Keep walking”.

Em nota, a família não informou a causa oficial de sua morte nesta quarta-feira (14). Anunciou, apenas, que morreu pacificamente. Como viveu.