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Restrição a aglomerações humanas pode ser necessária para conter coronavírus

Na China o surto está registrando queda no número de casos - Foto: Xiong Qi/Agência Xinhua/Divulgação

O virologista Fernando Rosado Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), sugere ação imediata das instituições no cancelamento de eventos e atividades nos ambientes escolares.

De acordo com o professor e pesquisador Fernando Rosado Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV) e docente da Feevale, a hora de agir é agora, enquanto o surto do novo coronavírus (Covid-19) ainda está em seu estágio inicial. Segundo ele, apesar da relutância do governo federal em assumir postura mais ativa, há iniciativas nas esferas estaduais e municipais que já estão em curso.

Ministério da Saúde publicou na última quinta-feira, 12, portaria 356/20 que regulamenta a Lei 13.979/20 e estabelece as medidas de enfrentamento à doença no território brasileiro. Para Spilki, o governo federal terceiriza a responsabilidade a estados, municípios e iniciativa privada.

Na opinião do virologista, baseada em experiências mundiais anteriores, o fechamento temporário das instituições de ensino evitará um efeito amplificador. Mesmo que o vírus seja pouco letal para jovens, entre os mais velhos a taxa de mortalidade é maior.

Outro fator que torna o coronavírus perigoso é que o surto pode ser potencializado pela gripe vinda do Hemisfério Norte, tão violenta que matou 20 mil norte-americanos no último inverno e contaminou 26 milhões só nos EUA. Diferente de outros locais teremos a confluência desses dois vírus na mesma época. Spilki concedeu entrevista ao Extra Classe nesta sexta-feira, 13 de março.

Fernando Rosado Spilki, Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), processor da Feevale e pesquisador

Fernando Rosado Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), professor da Feevale e pesquisador / Foto: Acervo Pessoal/Divulgação

Extra Classe – No atual estágio de propagação do coronavírus no Brasil, o que a comunidade escolar precisa saber e como se precaver?
Fernando Rosado Spilki – As universidades e escolas são ambientes que têm sido muito visados para a parada de atividades no sentido de tentar minimizar o surto neste primeiro momento. Nesse estágio ainda se tem uma transmissão entre indivíduos que estão incubando a doença ou com sinais leves. Felizmente, estes últimos representam a maioria dos casos. Tentar bloquear o vírus agora é parte de uma estratégia que é bastante antiga. Desde o tempo da Gripe Espanhola, em 1918. Se compararmos cidades americanas que pararam e que fizeram aquilo que chamamos de distanciamento populacional observamos que houve mais sucesso no controle do surto. Essa é uma estratégia aplicada para doenças respiratórias em geral, inclusive surtos de gripe.

EC – Qual o momento certo para isso?
Spilki – Uma das coisas importantes é que isso aconteça o mais perto possível do princípio do surto. E, no Brasil, seria agora este momento. Com isso teremos um menor número de casos, agindo sobre a elevação da curva de propagação e fazendo com que a primeira onda da epidemia não atinja seu potencial máximo em termos de pico de contágio.

EC – Foi isso que a China tentou fazer? Como o senhor avalia as ações dos chineses, tão criticadas, mas que agora conseguiram refluir o surto?
Spilki – A China não teve nem tempo de pensar em fazer algo tão no princípio como seria necessário. O que eles fizeram foi muito ostensivo e duradouro. Foi uma quarentena bastante prolongada, que é justamente o tipo de prejuízo evitável se fizermos uma quarentena mais precoce.

EC – A China foi bastante criticada também.
Spilki – Eu não critico em nada as medidas tomadas lá. Agora todos estão vendo, com os surtos em outras regiões, como é difícil deter um surto. E eles conseguiram, porque cada vez reduz mais o número de casos. Eles conseguiram evitar que os outros 999 milhões de pessoas não tivessem grandes problemas. Foi um processo que iniciou especialmente naquela região de Wuhan. Eles tiveram que realmente construir hospitais em questão de dias para poder ir adiante com os atendimentos, mas foi eficiente. Impossível não reconhecer isso.

EC – Quando o senhor diz que é preciso parar, o que exatamente deve ser feito?
Spilki – Parar significa, ao menos paulatinamente – o que não quer dizer lentamente – começar a desestimular todas as atividades que levam à aglomeração de pessoas. Especialmente aquelas que levam a reunir pessoas por tempo muito prolongado.

EC – Quais seriam?
Spilki – Jogos de futebol, shows, peças de teatro e eventos religiosos. Em relação às escolas e universidades, o que se vê em países como Bélgica, França, Estados Unidos, Portugal é um grande número de escolas e universidades paradas. O foco desses ambientes está justamente nisso. Primeiro, que normalmente são ambientes que têm uma população que em surtos, geralmente são muito atingidas. Não é o caso agora, pois não dá muitos problemas de saúde em jovens, mas que vai servir de amplificador e carreador do vírus para outras gerações. Especialmente para idosos, que são muito atingidos. Em outras palavras, os mais jovens levam o vírus para suas famílias e ele se espalha.

EC – Quais são as especificidades do ambiente escolar?
Spilki – Na escola e na universidade tem um detalhe muito específico que é o seguinte: são muitas pessoas confinadas em um espaço pequeno, normalmente fechado, durante muitas horas. Isso promove uma chance maior do espalhamento do vírus.

EC – Como o senhor avalia o papel dos meios de comunicação neste momento? Tem sido mais alarmista do que deveria ou vem cumprindo seu papel de informar? Estão dando a devida proporção para a importância do vírus? Afinal, vivemos quase um massacre midiático sobre o tema. O que é ou não relevante na cobertura da imprensa?
Spilki – Eu tenho bastante experiência com os diferentes tipos de mídia de diferentes perfis. O que eu vejo é que há sim muitos veículos em que a gente observa bastante sensacionalismo na cobertura. Por outro lado, há uma série de veículos que estão compromissados em informar. Uma coisa que as pessoas precisam entender é que quando começa um surto desses e a gente vê a situação lá na China, a gente vê uma situação de possível controle muito diversa do que ocorre depois. E, é claro que a imprensa, às vezes, está muito mais disposta a tranquilizar do que informar sobre o verdadeiro impacto, que é grande. De repente, o quadro começa a mudar, precisamos avaliar que mesmo nós, as fontes de quem a imprensa se abastece, também vamos percebendo que há uma piora do quadro e mudamos o tom.

EC – Dá pra dizer que houve uma virada?
Spilki – Sim. Houve uma virada importante. Porque uma coisa é você controlar uma epidemia com um governo bastante centralizado, com um povo que culturalmente possui uma espécie de disciplina de composição de teias de redes sociais muito particular e diferente de como é no Ocidente. Aí você tem, posteriormente, a transmissão do vírus para locais em que as estruturas sociais e de redes é totalmente diferente, mas muito similar às nossas no Brasil, como é a Itália. Por isso, que depois de um dado momento em que a gente viu o agravamento do surto italiano, não só os meios de comunicação, mas também nós que somos fontes passamos a enxergar uma gravidade maior e a iminência de uma epidemia de proporções maiores. Quinze dias atrás a gente previa a possibilidade de dois cenários. Um cenário em que se teria poucos casos e se conseguisse conter e outro mais grave com a instalação de uma epidemia. Não é motivo para pânico, mas que terá de ser contornado. Ou seja, não há possibilidade de não termos uma epidemia, o que se trabalha é para que seja a mais branda possível.

EC – E como estão se comportando os governos e autoridades nas diferentes instâncias e âmbitos federal, estadual e municipal?
Spilki – Me parece que os governos estavam tendo uma atitude mais voltada para o mapeamento bastante fidedigno do número de casos e da busca de casos e de suspeitas. E a partir da declaração da pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é que vimos serem tomadas algumas atitudes mais efetivas por estados e municípios do que na esfera federal. Há uma certa passividade e uma observação de qual será o possível quadro.

EC – E a portaria do Ministério da Saúde?
Spilki – Ontem (12 de março) saiu a portaria que regulamenta a atitude perante o surto, que define como será o sistema de defesa por parte do Ministério da Saúde nos próximos seis meses. Em alguns momentos parece que governo federal prevê ações importantes, mas elas estão retardadas demais em relação ao que deveria já estar sendo feito de forma imediata.

EC – Por exemplo?
Spilki – Por exemplo, no que diz respeito a eventos públicos. O governo deixa a critério dos empreendedores e promotores decidirem ou não pelos cancelamentos ou caso não cancelem, que garantam a segurança do público. Em outras palavras, que eles procurem cancelar mas que se não for possível, que deem garantia de segurança do público. Não sei se isso é o mais adequado. Penso que o governo, enxergando a possibilidade de algum problema, deveria assumir essa responsabilidade de fazer os cancelamentos.

EC – E nas esferas locais?
Spilki – Hoje mesmo (13 de março) o governo estadual publicou um decreto menos brando, visando coibir aglomerações em eventos e repartições públicas. Na própria região do Vale dos Sinos já se está coibindo até mesmo estágios de alunos em centros de saúde, para evitar mais gente. Essas iniciativas são importantes, porque na medida em que a própria esfera federal terceiriza a responsabilidade e coloca nas mãos dos cidadãos, da iniciativa privada e das outras instancias governamentais a decisão do que fazer, o tempo passa e a doença se alastra. Diante disso, as instituições públicas e privadas precisam tomar a frente e estão tomando, pois precisam agir rápido e de acordo com o que seu arcabouço técnico permite e conforme as situações específicas forem se apresentando.

EC – As escolas e universidades devem se posicionar logo, então?
Spilki – As nossas instituições de ensino precisam, em algum momento, decidir parar ou não as atividades ou substituir por atividades a distância. Porque nós temos não só o coronavírus, mas também vivemos a iminência de uma temporada de gripe muito rigorosa e que não deve tardar muito. Ocorrerá antes do inverno, possivelmente. Diante disso, as instituições devem estar atentas e até colocar na ordem do dia a possibilidade de restringir o acesso de grandes quantidades de estudantes.

EC – Qual a importância das vacinas para gripe neste momento?
Spilki – Elas vão auxiliar muito. Mesmo não dando uma defesa direta para o coronavírus, mas elas vão evitar uma possível infecção muito grave, que seria a associação do coronavírus com a gripe e no mesmo paciente. Outra coisa é que não temos só o desafio do novo coronavírus neste inverno. O Hemisfério Norte teve um inverno rigoroso e com um surto forte de gripe, com mais de 26 milhões de casos só nos EUA, que é 10% da população, com quase 20 mil mortes. Então, já temos essa circulação de gripe, pois já foi detectada em pacientes em que deu negativo para o coronavírus. Então, as pessoas precisam estar atentas a isso.

EC – E já existe a vacina para gripe com as cepas atualizadas no Brasil?
Spilki – Sim, elas já estão começando a chegar nos postos e em alguns lugares já começam a vacinar entre este dia 13 e 23 de março.

EC – Por que não há motivo para pânico?
Spilki – Na maioria das faixas etárias ele rivaliza em óbitos nos mesmos números de doenças graves e gripe. Tem letalidade baixa. Mas entre idosos a letalidade é maior. E isso é uma coisa para a qual a sociedade tem de estar preparada. Precisamos criar um cordão de isolamento, de quarentena preventiva para os nossos idosos. É preciso que se restrinja a exposição deles a ambientes de aglomeração, que eles não vão a ambientes que possam pegar o vírus. Devem evitar totalmente o contato com pessoas que apresentem qualquer sintoma, inclusive de gripe ou qualquer doença respiratória. Muitas vezes uma doença respiratória branda para uma pessoa jovem, se for por coronavírus num idoso ou paciente diabético, cardíaco ou pulmonar pode se transformar em algo muito grave.

 

Fernando Spilki possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs, 2001), mestrado em Ciências Veterinárias pela Ufrgs, na área de Virologia Animal (2004) e doutorado em Genética e Biologia Molecular, área de Microbiologia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp, 2006). É presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), professor titular e Coordenador do Curso de Medicina Veterinária – Feevale. Bolsista de Produtividade do CNPq – Nível 1B. Membro do Conselho Fiscal do Colégio Brasileiro de Patologia Animal (CBPA). Editor Associado da Área de Virologia Veterinária do Brazilian Journal of Microbiology. Academic Editor na área de Veterinary Medicine do periódico PeerJ; e coordenador do Comitê de Ciências Agrárias da Fapergs 2019-2021. Atua em projetos nas áreas de virologia animal, humana e ambiental, com apoio financeiro do CNPq, Capes, Finep, Funasa, Ministério da Saúde, SDECT-RS e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).

Fonte Extra Classe