Menu

Pedidos de intervenção militar são limitados à falta de conhecimento, diz doutor em História do Brasil

Pedidos de intervenção militar são limitados à falta de conhecimento, diz doutor em História do Brasil

Em meio à greve dos caminhoneiros, surgiram pedidos de intervenção militar, expressos em cartazes e manifestações, à beira das rodovias e em várias cidades do país. Vieram de pessoas que não necessariamente participavam do movimento, mas viram nele a oportunidade de incluir seu pleito.

Não é a primeira vez nos últimos anos que se vê a intervenção militar entre as bandeiras de manifestantes. Nos atos contra a ex-presidente Dilma Rousseff aconteceu o mesmo. Mas o que representa uma intervenção militar? O que foi a ditadura no Brasil? Na entrevista abaixo, o doutor em História do Brasil e professor da UCS, Roberto Radünz, tenta clarear o assunto. 

Confira:

O que foi a ditadura militar no Brasil?
Foi um período (que começou na década de 1960) em que o país esteve alinhado aos EUA no contexto maior da Guerra Fria. Foi uma etapa onde se consolidou um projeto desenhado na década anterior de abertura das fronteira econômicas aos interesses internacionais. A ditadura, através da censura, escondeu os atos contra a sociedade com a finalidade de se manter no poder o maior período possível e, com isso, consolidar o projeto referido anteriormente. A ditadura mascarada de "governo constitucional" perseguiu todos aqueles que levantavam sua voz contra o rompimento do Estado democrático. Os porões da tortura, com suas práticas fascistas, ainda hoje ecoam a lástima política que representou esse período para a história brasileira.

O que ficou de herança daquele período?
O regime também criou um lapso na consciência crítica de boa parte dos brasileiros. Através da intervenção na educação com a proibição ou enquadramento de disciplinas que levavam a uma análise crítica do que estava acontecendo, os militares responsáveis pelo golpe passavam a impressão de que tudo estava bem. Cantando Este é um país que vai prá frente... ou repetindo o slogan Brasil: ame-o ou deixe-o, os problemas sociais e o autoritarismo expresso, sobretudo no AI – 5 (Ato Institucional nº 5), eram varridos para baixo do tapete. Essas políticas geraram um anestesiamento da consciência crítica que se mostra na sociedade atual.

Por que as pessoas estão pedindo intervenção militar?
Por falta de conhecimento sócio-histórico, por anestesia política, por ignorância no sentido do desconhecimento. Essa é a herança do regime militar, ou seja, uma cicatriz que esconde uma enorme metástase de incompreensão do autoritarismo que ainda se aloja no tecido social daqueles que pedem a intervenção militar. Elas estão pedindo também porque têm encontrado nas manifestações como a greve dos caminhoneiros e nas redes sociais espaços para externarem seu obscurantismo político. Aliás, as redes sociais abriram ainda mais espaço para que os "idiotas da aldeia" expressem suas posições sem comprometimentos argumentativos, elas dão, segundo Umberto Eco, o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

As pessoas que estão defendendo a intervenção militar têm noção do que é isso?
Tem noção, mas limitada à falta de conhecimento. Isso é herança do regime.

É mais desinformação ou ideologia mesmo?
Penso que seja desinformação, porém, desinformação também é ideologia, ou seja, aquilo que (dramaturgo e escritor alemão Bertolt) Brecht traduziu como analfabetismo político.

Como se daria, e como seria, na prática, uma intervenção militar?
Não tenho como profetizar, aliás, essa não é a função do historiador. De qualquer maneira, seria uma "farsa ou tragédia" (Karl Marx, filósofo).

O que caracteriza uma intervenção militar?
A negação da democracia. A volta de censura. A impossibilidade de manifestação individual, social ou classista.

Que valores ou preocupações podem nortear um desejo como esse?
Individualismo exacerbado, ou seja, como o indivíduo pactuador desse modelo pode tirar proveito maior.

Esse movimento tem alguma chance de prosperar com a candidatura de (Jair) Bolsonaro (pré-candidato do PSL à Presidência da República)?
Há setores da sociedade que se veem representados na figura de Bolsonaro. Não acredito nesse projeto. A sociedade é maior do que essa anomalia representada nessa pré-candidatura.

Existe semelhança com a crescente popularidade da extrema direita em outros países?
Penso que sim. Mas em cada país onde o fenômeno se mostra, as particularidades precisam ser consideradas. Por exemplo: a Europa tem as suas questões, os EUA, os seus interesses, a América Latina, as suas contradições... Conclusão: a direita em todos os lugares quer o poder para garantir os seus propósitos.

 

Por Juliana Bevilaqua - Publicado no jornal Pioneiro de 4 de junho de 2018.