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Organizações reagem à tentativa de inibir discurso de professor caxiense em formatura da Unisinos

"Não deixaremos que a tirania nos cale mais uma vez" - afirmou Felipe Boff

O professor caxiense Felipe Boff, no exercício do papel de paraninfo em formatura do curso de Jornalismo na Universidade do Rio dos Sinos (Unisinos), pautou seu discurso na liberdade de imprensa, citando frases recentes do presidente Bolsonaro. Alguns homens da plateia proferiram xingamentos e tentaram interromper várias vezes o discurso. Felipe contou com o apoio de formando, docentes e convidados para concluir o discurso.  

O fato aconteceu no dia 7 de março. Em entrevista ao jornal Extra Classe, Felipe disse estar espantado com a reação autoritária e antidemocrática, justamente em se tratando de uma formatura do curso de Jornalismo e diante de um discurso que simplesmente defendia a liberdade de imprensa e o Jornalismo dos ataques vem sofrendo. “Essa situação só mostrou que esse discurso, infelizmente, ainda é muito necessário”, completou o professor.

Imediatamente após o ocorrido, a Universidade ofereceu escolta ao paraninfo e professores tanto da Unisinos como de outras instituições se manifestaram por meio de notas.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjor/RS) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) reagiram: “Sindjor e Fenaj repudiam toda e qualquer forma de ataque à liberdade de expressão e de pensamento, ainda mais dentro de uma instituição de ensino. A ação ocorrida na Unisinos representa uma intimidação à atividade profissional e é condenável”.

A coordenação do curso emitiu declaração de apoio e solidariedade ao jornalista e professor, destacando que a fala foi corajosa e necessária, “principalmente na ocasião em que jovens colegas chegam ao mercado de trabalho, Felipe, embasado em dados e exemplos, alertava para o que deveria ser óbvio: o presidente da República vem constantemente ofendendo e destratando jornalistas”.

A Unisinos também lançou nota: “Como instituição suprapartidária e defensora dos princípios democráticos, a Unisinos, cumprindo seu papel de universidade, respeita as mais diversas posições, constituindo-se como um espaço em que se preserva e se estimula a pluralidade de ideias. Sendo assim, a Universidade esclarece que, nas cerimônias de colação de grau, os professores escolhidos pelos alunos para representá-los como paraninfos têm o direito de fazer uso da palavra e liberdade para se expressarem conforme suas convicções pessoais.”

O deputado estadual Valdeci Oliveira (PT) apresentou proposição na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul para a concessão da Medalha da 55ª Legislatura ao jornalista Felipe Boff. 

Em entrevista para a Sul 21, Felipe acha importante transformar o fato ocorrido em assunto nas salas de aula: “Os próprios alunos e outros colegas já tomaram essa iniciativa nas suas atividades, é inevitável conversar sobre o que aconteceu. A universidade é um espaço sagrado de diálogo, então o primeiro momento já foi o de alunos e professores dialogarem sobre o que aconteceu, cada um com suas opiniões, há espaço para todos se manifestarem, mas da forma correta, conversando, tentando construir um entendimento, respeitando a posição do outro.

Então acho que vai deixar uma reflexão que irá perdurar um tempo, porque extravasou o espaço da universidade. E espero tenha conseguido também ultrapassar da universidade essa proposta de diálogo. O que falei lá (a cerimônia de formatura) foi pra provocar uma reflexão. Se nós conseguirmos que a sociedade tenha a mesma reflexão que se faz na universidade, que bom, vamos conseguir conversar mais. E principalmente impedir que esses ataques se naturalizem, porque se esses ataques contra a imprensa, promovidos principalmente pelo Presidente da República, se naturalizarem, lá adiante não vamos ter a própria imprensa, e aí é a ditadura de novo.”

Leia o discurso do professor na íntegra:

A imprensa brasileira vive seus dias mais difíceis desde a ditadura militar. Entre 1964 e 1985, jornalistas foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados, como Vladimir Herzog. Hoje, somos insultados nas redes e nas ruas; perseguidos por milícias virtuais e reais; cerceados e desrespeitados por autoridades que se sentem desobrigadas de prestar contas à sociedade. Todos sabem – mesmo aqueles que não acompanham as notícias – quem é o principal propagador dessa ameaça crescente à liberdade de imprensa. É o mesmo que também considera como inimigos os cientistas, professores, artistas, ambientalistas – como se vê, estamos bem acompanhados.

No ano passado, segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas, o presidente da República atacou a imprensa 116 vezes em postagens nas suas redes sociais, pronunciamentos e entrevistas. Um ataque a cada 3 dias.

Querem exemplos? “É só você fazer cocô dia sim, dia não.” “Você está falando da tua mãe?” “Você tem uma cara de homossexual terrível.” “Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai.” É dessa forma chula e rasteira que o presidente da República, a maior autoridade do país, costuma responder aos jornalistas. Seus xingamentos tentam desviar a atenção das respostas que ele ainda deve à sociedade. Nos casos citados, explicações sobre o retrocesso da preservação ambiental no país, sobre os depósitos do ex-assessor Fabrício Queiroz na conta da hoje primeira-dama, sobre o esquema da “rachadinha” de salários no gabinete do filho hoje senador, sobre o envolvimento da família presidencial com milicianos.

O presidente das fake news, que bate na imprensa cada vez que ela informa um fato negativo sobre ele e seu governo, é o mesmo que deu 608 declarações falsas ou distorcidas – quase duas por dia – ao longo de 2019. O levantamento é da agência de checagem Aos Fatos. Querem exemplos? “O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente no mundo.” “Leonardo Di Caprio tá dando dinheiro pra tacar fogo na Amazônia.” “O Brasil é o país que menos usa agrotóxicos.” “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira.” “Nunca teve ditadura no Brasil.”

Em 2020, depois de completar um ano de mandato com resultados pífios na economia e desastrosos na educação, na cultura, na saúde e na assistência social, o presidente não serenou. Redobrou os ataques à imprensa. Aplicou o duplo sentido mais tosco à expressão jornalística “furo” para caluniar a repórter que denunciou a manipulação massiva do WhatsApp na campanha eleitoral. Atacou outra jornalista, mentindo descaradamente, para negar a revelação de que compartilhou vídeos insuflando manifestações contra o Congresso e o STF.

E segue promovendo o boicote à imprensa, com exceção daqueles que aproveitam o negócio de ocasião para vender subserviência e silêncios estratégicos. Aos veículos que não se dobram ao seu despotismo, o presidente da República impinge pessoalmente retaliações financeiras diretas, pressão sobre anunciantes e difamação de seus profissionais. Pratica, enfim, toda sorte de manobras sórdidas para tentar asfixiar o jornalismo e alienar a população dos fatos. E já nem se preocupa em disfarçar suas intenções. Querem um último exemplo? Declaração de 6 de janeiro deste ano, dita pelo presidente aos jornalistas “Vocês são uma raça em extinção”. 

Não, presidente, não somos uma raça em extinção. Ao contrário. Somos uma raça cada dia mais forte, mais unida, mais corajosa, mais consciente. Basta olhar para estes 21 novos jornalistas que estamos formando hoje. Basta ler os dizeres na camiseta deles: “Não existe democracia sem jornalismo”.

Esta é a mensagem a ser destacada nesta noite: quando tenta calar e desacreditar a imprensa, o atual presidente da República ameaça não só o jornalismo e os jornalistas. Ameaça a democracia, a arte, a ciência, a educação, a natureza, a liberdade, o pensamento. Ameaça a todos, até aqueles que hoje apenas o aplaudem – estes, que experimentem deixar de bater palma para ver o que acontece.

Para encerrar, gostaria de citar o exemplo e as palavras do grande escritor e jornalista argentino Rodolfo Walsh. Precursor da reportagem literária e investigativa e destemida voz contra o autoritarismo e o terrorismo de Estado, Walsh pregava que “Ou o jornalismo é livre, ou é uma farsa, sem meios-termos”. Dizia também que “um intelectual que não compreende o que acontece no seu tempo e no seu país é uma contradição ambulante; e aquele que compreende e não age, terá lugar na antologia do pranto, não na história viva de sua terra”.

Rodolfo Walsh foi sequestrado e assassinado pela ditadura argentina em 25 de março de 1977. Na véspera, publicara corajosamente uma “carta aberta à junta militar”, denunciando os crimes do sanguinário regime, que então completava apenas seu primeiro ano. Estas foram as últimas palavras que Walsh escreveu: “Sem esperança de ser escutado, com a certeza de ser perseguido, mas fiel ao compromisso que assumi, há muito tempo, de dar testemunho em momentos difíceis”.

Jornalistas, este é o nosso compromisso. Não deixaremos que a tirania nos cale mais uma vez.

 

Com informações de Extra Classe / Sul 21 / Entrevista Sul 21 / Brasil de Fato  e foto de Angélica Splenger Fotografias (publicada originalmente na Gaúcha ZH)